Saúde do homem

Como aumentar testosterona: o que sobe sem repor

Peso, sono, álcool e treino movem o número, e a magnitude está medida. O que cada alavanca entrega, e onde o "naturalmente" encontra o próprio teto.

Quem digita “como aumentar testosterona” recebe sempre a mesma lista: treino de força, sono de sete a nove horas, controle do peso, menos estresse, ostras, abacate e castanha. Nada disso é falso. O problema é que a lista vem sem tamanho, e sem tamanho não dá para decidir nada. Perder oito quilos e trocar a castanha da tarde não são a mesma coisa, e a diferença entre as duas está medida na literatura.

Depois de algumas páginas, a busca costuma mudar de assunto sozinha e virar o nome de um frasco. É um caminho compreensível, e é onde o texto precisa ser mais honesto: o que sobe sem repor tem magnitude conhecida, e tem teto.

Peso: a maior alavanca, e a única com tamanho bem estabelecido

Em homem com obesidade, perder peso é o que mais move o número. Uma metanálise publicada no European Journal of Endocrinology reuniu 24 estudos e encontrou aumento da testosterona total de 2,87 nmol/L (IC 95% 1,68 a 4,07) com dieta hipocalórica e de 8,73 nmol/L (IC 95% 6,51 a 10,95) após cirurgia bariátrica, ambos com P<0,0001 em relação ao valor inicial. Em nanogramas por decilitro, a unidade dos laboratórios brasileiros, isso equivale a algo perto de 83 e 252.

O achado mais útil não é a média, é o que a determina: na regressão múltipla, o grau de perda de peso foi o melhor preditor da alta. Quem perdeu mais, subiu mais. A perda de peso também reduziu o estradiol e elevou as gonadotrofinas, o que sugere um eixo voltando a funcionar, e não hormônio chegando de fora. Vale o recorte: a população estudada tinha obesidade. Não há, ali, evidência de que comer melhor eleve a testosterona de quem já está no peso. Se emagrecer é justamente o que não sai do lugar, o obstáculo costuma ser metabólico e investigável.

Dormir pouco derruba o número em uma semana

O sono aparece em toda lista, quase sempre sem número. Ele existe. Em um experimento publicado no JAMA, dez homens saudáveis com média de 24 anos passaram três noites com oito horas de cama e depois oito noites com cinco horas. A testosterona diurna ficou de 10% a 15% mais baixa na fase de restrição (16,5 contra 18,4 nmol/L; P=0,049), com o efeito mais marcado entre as duas da tarde e as dez da noite.

São dez homens jovens, em laboratório, por uma semana. Não é um ensaio de tratamento, e ninguém deve esperar que dormir mais normalize um exame alterado. O que o estudo mostra bem é a direção e a ordem de grandeza: privação de sono sustentada derruba a testosterona de homem saudável em poucos dias, o que significa que um exame colhido no meio de um período ruim de sono não representa o basal. Quando o sono não vem, a pergunta útil não é qual suplemento tomar, e sim o que está impedindo o sono.

Apneia do sono: o ponto em que a maioria dos textos erra

A frase que circula é “trate a apneia e a testosterona sobe”. A evidência agregada não sustenta essa parte. Uma metanálise de dez coortes prospectivas e dois ensaios randomizados, com 388 pacientes, não encontrou mudança da testosterona total com o uso de CPAP (diferença média 1,08; IC 95% -0,48 a 2,64), nem da testosterona livre, da SHBG, do FSH ou do LH. A análise por subgrupo, separando quem já tinha hipogonadismo de quem não tinha, chegou ao mesmo resultado.

Isso não torna a apneia irrelevante, e é aqui que a leitura precisa de cuidado. A apneia obstrutiva anda junto com a obesidade e fragmenta o sono, e os próprios autores concluem que estratégias além do CPAP precisam ser consideradas quando existe hipogonadismo associado. A tradução prática é que a apneia merece ser investigada e tratada pelo que ela é, e que o número da testosterona tende a responder ao peso, não ao aparelho.

Álcool: efeito pequeno, constante e no bebedor que se considera saudável

O álcool costuma entrar nas listas como “evite excesso”, o que não diz nada a quem bebe duas ou três vezes por semana e não se considera excessivo. Uma metanálise publicada na revista Andrology, com 21 estudos, 30 comparações e 10.199 homens, associou o consumo de álcool a redução significativa da testosterona total e da testosterona livre, queda da SHBG e aumento do estradiol, com efeito neutro sobre o LH.

O detalhe contraintuitivo está no recorte. O efeito apareceu justamente nos homens saudáveis com consumo crônico, e não naqueles com diagnóstico de transtorno por uso de álcool nem após uma ingestão isolada. Ou seja, o que aparece na dosagem não é o episódio de fim de semana, é o hábito de repetição. Nenhum estudo define um limite seguro individual, e a magnitude é modesta, mas essa é uma variável que a pessoa controla sozinha e que quase nunca entra na conta antes de o exame ser repetido.

Treino: o ganho que você procura não depende do pico hormonal

Musculação está em todas as listas, e a explicação que costuma acompanhá-la está errada. A justificativa popular é o pico de testosterona depois da série. Em um estudo com 49 homens já treinados, que fizeram doze semanas de treino de corpo inteiro, não houve nenhuma correlação significativa entre a elevação aguda de qualquer hormônio dito anabólico e o ganho de força ou de hipertrofia. A massa magra e a área das fibras aumentaram de todo modo.

Em homens com obesidade ou diabetes tipo 2, o treino aeróbico teve efeito moderado sobre a testosterona em uma metanálise de sete estudos (g = 0,565; IC 95% 0,307 a 0,822), com amostra pequena e ressalvas dos próprios autores. A leitura honesta é dupla: o treino pode ajudar no número em quem tem alteração metabólica, e entrega de forma independente disso a força, a massa magra e a capacidade física que o homem estava buscando quando digitou a palavra testosterona. É o desfecho que envelhece bem, e ele não espera o exame.

Suplementos: o que as revisões sistemáticas encontraram

Aqui a distância entre a prateleira e a evidência é a maior de todas. Uma revisão sistemática de duas décadas de estudos avaliou 52 trabalhos sobre 27 substâncias vendidas como estimuladoras de testosterona, entre elas tribulus, maca peruana, ácido D-aspártico, zinco e magnésio, e concluiu que a maioria falha em aumentar a testosterona total. Outra revisão, dos produtos mais vendidos, registrou que nenhum produto inteiro tem ensaio randomizado publicado e que 68% dos ingredientes têm evidência contraditória, negativa ou ausente.

O tribulus, um dos mais populares, tem revisão própria e brasileira. Uma análise de dez estudos clínicos com 483 homens não encontrou mudança no perfil androgênico em oito deles; os dois que encontraram mostraram aumento de baixa magnitude clínica, de 60 a 70 ng/dL, em homens com hipogonadismo. É essa mesma revisão que a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia cita ao afirmar, no canal oficial, que não há evidência de que esses fitoterápicos aumentem a testosterona, razão pela qual eles não aparecem nas diretrizes de tratamento.

Vitamina D: dois ensaios randomizados, nenhum efeito

A vitamina D aparece nas listas com uma ressalva que soa cuidadosa: funcionaria quando existe deficiência. Essa condição foi exatamente a testada. Um mesmo grupo austríaco conduziu dois ensaios randomizados com placebo. No primeiro, 98 homens saudáveis com 25-hidroxivitamina D abaixo de 75 nmol/L receberam vitamina D3 ou placebo por doze semanas, sem efeito sobre a testosterona total (P=0,497). No segundo, o mesmo desenho foi aplicado a 100 homens que já tinham testosterona baixa, e também não houve efeito significativo, nem sobre a testosterona nem sobre os desfechos secundários.

Dois ensaios, duas populações diferentes, nenhum resultado positivo. Isso não torna a vitamina D irrelevante para o restante da saúde, e não é argumento para ignorar uma deficiência real, que tem indicação própria de dosagem e correção. Só significa que ela não é uma alavanca de testosterona, e que corrigir o estoque de vitamina D esperando ver o hormônio subir tende a gerar frustração.

O que existe entre não fazer nada e repor

A conversa costuma ser apresentada em dois blocos: ou hábitos, ou hormônio de fora. Existe um espaço entre os dois, e ele é pouco conhecido justamente por quem mais procuraria. Uma revisão de tratamentos que não usam testosterona reuniu cinco estudos com gonadotrofina coriônica em 196 homens de idade média 41,7 anos, nos quais a testosterona total passou de 284,5 para 565,6 ng/dL, com P<0,0001, acompanhada de melhora nos escores de sintomas.

A diferença conceitual importa mais que o número: essa classe estimula o próprio testículo a produzir, em vez de substituir a produção. Isso muda o efeito sobre a fertilidade, que é uma das principais preocupações de quem tem quarenta anos e ainda pretende ter filhos. Não é conduta de bula única nem se aplica a todo mundo: depende do tipo de hipogonadismo, do LH, do plano reprodutivo e da avaliação individual. É informação para saber que a pergunta existe, não para levar pronta à farmácia.

O teto honesto, e por que o diagnóstico vem primeiro

Vale dizer com todas as letras onde o “naturalmente” para. As alavancas de estilo de vida movem dezenas de nanogramas por decilitro, e movem mais em quem tem mais a corrigir. Diante de um hipogonadismo estabelecido, isso pode não bastar, e insistir sozinho por anos custa tempo. O inverso também merece calibração: nos Testosterone Trials, com 790 homens de 65 anos ou mais, testosterona abaixo de 275 ng/dL e sintomas, um ano de tratamento trouxe benefício moderado na função sexual, benefício pequeno no humor e nenhum na vitalidade ou na distância caminhada em seis minutos.

Existe ainda uma regra que decide a ordem das coisas. A Resolução CFM 2.333/2023 veda o uso de qualquer formulação de testosterona sem a devida comprovação diagnóstica da deficiência, além dos usos com finalidade estética, de ganho de massa muscular e de desempenho esportivo. A finalidade antienvelhecimento é vedada pela Resolução CFM 1.999/2012. Antes de discutir o que aumenta, portanto, vem o que o exame realmente diz, e por que o CFM regula esse terreno.

Perguntas frequentes

Dá para aumentar a testosterona naturalmente?

Em parte, e com magnitude conhecida. Em homens com obesidade, a perda de peso aumentou a testosterona total em cerca de 2,87 nmol/L com dieta hipocalórica em metanálise, com alta proporcional ao peso perdido. Sono adequado, redução do consumo crônico de álcool e atividade física completam o conjunto de fatores com evidência. São mudanças que movem dezenas de nanogramas por decilitro, não centenas, e o efeito é maior em quem tem mais a corrigir. Resultados variam de pessoa para pessoa, e um quadro de hipogonadismo estabelecido pode não se resolver só com hábitos.

Perder peso aumenta a testosterona?

Em homens com obesidade, sim, e é a intervenção não medicamentosa com o maior efeito documentado. Em metanálise de 24 estudos, a testosterona total subiu com dieta hipocalórica e subiu mais após cirurgia bariátrica, sendo o grau de perda de peso o melhor determinante do aumento. A perda de peso também reduziu o estradiol e elevou as gonadotrofinas. Esses dados vêm de populações com obesidade e não demonstram o mesmo efeito em quem já está no peso adequado.

Suplemento para testosterona funciona?

A evidência é majoritariamente negativa. Uma revisão sistemática de 52 estudos sobre 27 substâncias vendidas com essa promessa concluiu que a maioria falha em aumentar a testosterona total. Em outra revisão, dos suplementos mais vendidos, nenhum produto completo tinha ensaio randomizado publicado e 68% dos ingredientes apresentavam evidência contraditória, negativa ou ausente. No caso do tribulus, uma revisão brasileira de dez estudos não encontrou mudança no perfil androgênico na maioria deles. Deficiências nutricionais reais são outra conversa, e se corrigem por indicação clínica, não por promessa de rótulo.

Tratar a apneia do sono aumenta a testosterona?

Não pelo uso do CPAP em si, segundo a evidência agregada. Uma metanálise com 388 pacientes não encontrou mudança na testosterona total nem nos demais hormônios do eixo após o tratamento com CPAP, inclusive na análise separada de quem já tinha hipogonadismo. Isso não diminui a importância de investigar e tratar a apneia, que tem consequências próprias sobre sono, pressão arterial e metabolismo. Nos estudos disponíveis, o fator que se associa à elevação da testosterona nesse grupo é a redução do peso.

Meu exame deu baixo. Posso começar testosterona por conta própria?

Não. A Resolução CFM 2.333/2023 veda o uso de qualquer formulação de testosterona sem a devida comprovação diagnóstica da deficiência, e também os usos com finalidade estética, de ganho de massa muscular e de desempenho esportivo. O diagnóstico exige sintomas compatíveis e dosagens matinais confirmadas, e a investigação da causa muda a conduta, já que parte dos casos é secundária e potencialmente reversível. A testosterona vinda de fora também suprime a produção própria, com repercussão sobre a fertilidade. Cada caso é avaliado individualmente.

Fontes

Energia Vital · Formosa-GO

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Na Energia Vital, em Formosa-GO, a avaliação é individual e começa pela investigação da causa. O ajuste de alimentação e de exercício é a base da conduta, e qualquer decisão sobre medicação depende do diagnóstico estabelecido.

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