Longevidade
VO2 máximo e longevidade: o que o relógio estima e o que o exame mede
Cada 1 MET a mais de condicionamento se associa a 11% a 17% menos mortalidade. O problema é que quase ninguém sabe o próprio número, e o do relógio erra quase 16%.
Quase todo check-up mede colesterol, glicemia e pressão. Praticamente nenhum mede o condicionamento cardiorrespiratório, apesar de ele aparecer na literatura como um preditor de mortalidade tão forte quanto qualquer um dos três. E a maior parte das pessoas que hoje tem um número de VO2 máximo no pulso não sabe de onde ele vem nem o quanto ele erra.
O que o condicionamento cardiorrespiratório prevê
A evidência aqui é grande. Em 2024, Lang e colaboradores publicaram no British Journal of Sports Medicine uma revisão de revisões: 26 revisões sistemáticas, representando mais de 20,9 milhões de observações vindas de 199 coortes.
O achado central: comparando quem tem condicionamento alto com quem tem condicionamento baixo, o risco de morte por qualquer causa foi 53% menor. Na análise de dose-resposta, cada 1 MET a mais de condicionamento se associou a 11% a 17% menos mortalidade geral. Para incidência de insuficiência cardíaca, a redução por MET foi de 18%.
Um MET, a unidade usada nesses estudos, equivale a 3,5 mL de oxigênio por quilo de peso por minuto. Não é uma diferença pequena de condicionamento, e vale guardar esse número: ele volta no fim deste texto.
Os próprios autores registram que a certeza da evidência, pelo sistema GRADE, variou de muito baixa a moderada. São estudos observacionais: mostram associação, não causa.
Por que a cardiologia chama isso de sinal vital
Em 2016, a American Heart Association publicou uma declaração científica defendendo que o condicionamento cardiorrespiratório seja tratado como sinal vital clínico. O argumento: ele é um preditor potencialmente mais forte de mortalidade do que fatores de risco já estabelecidos, incluindo tabagismo, hipertensão, colesterol alto e diabetes tipo 2.
O trabalho mais citado nessa direção veio depois. Mandsager e colaboradores acompanharam 122.007 pacientes submetidos a teste de esforço na Cleveland Clinic. Estar no grupo de condicionamento mais baixo, comparado ao grupo de elite, associou-se a risco de morte cinco vezes maior. Na mesma população, tabagismo apareceu com risco 41% maior e diabetes com 40%.
Isso não significa que fumar seja irrelevante. Significa que a diferença entre estar no fundo e no topo da escala de condicionamento é maior, em magnitude, do que a diferença entre fumar e não fumar. E é uma população encaminhada para teste de esforço, não a população geral.
O que exatamente o relógio está estimando
O relógio não mede oxigênio. Ele estima o VO2 máximo a partir da relação entre frequência cardíaca e ritmo de corrida ou caminhada, apoiado numa frequência cardíaca máxima que também é estimada, quase sempre a partir da idade.
Quanto isso erra foi medido. Caserman e colaboradores compararam o Apple Watch Series 7 com um analisador de gases em laboratório. O erro percentual absoluto médio foi de 15,79%, e o coeficiente de correlação intraclasse ficou em 0,47, o que os autores classificam como confiabilidade pobre. O valor medido em laboratório (média de 45,88 mL/kg/min) foi significativamente maior que o estimado pelo relógio (41,37).
O padrão do erro importa mais que o tamanho: segundo os autores, esses dispositivos tendem a superestimar o VO2 máximo de quem tem condicionamento ruim e a subestimar o de quem tem condicionamento excelente. Ou seja, o erro empurra todo mundo para o meio, justamente onde a informação de risco perde valor.
O estudo tinha 19 participantes. É pequeno, e serve para dimensionar a ordem de grandeza do erro, não para cravar um decimal.
O que a ergoespirometria mede a mais
O teste cardiopulmonar de exercício, ou ergoespirometria, é a medida direta. Com uma máscara acoplada a um analisador de gases, ele mede o oxigênio consumido e o gás carbônico produzido a cada respiração, durante um esforço progressivo até o limite.
A diferença não está só na precisão do valor de pico. O teste identifica os limiares ao longo do esforço: o ponto em que a ventilação se descola do consumo de oxigênio, que é onde as faixas de intensidade realmente mudam de comportamento no corpo daquela pessoa. Nenhuma fórmula por idade entrega isso.
As indicações do exame são clínicas e bem delimitadas: investigar falta de ar ou fadiga sem causa aparente, diferenciar origem cardíaca de pulmonar ou muscular, acompanhar cardiopatias e reabilitação, avaliar risco antes de cirurgias de grande porte, e avaliação esportiva. Não é exame de rotina, e a indicação depende de avaliação médica individual.
Zona 2 sem saber o próprio limiar
Aqui mora o problema mais comum. A regra que circula é calcular a frequência cardíaca máxima por 220 menos a idade e treinar entre 60% e 70% desse valor. Os dois passos têm problema.
O primeiro é a fórmula. Tanaka e colaboradores reuniram 351 estudos e mostraram que 220 menos a idade subestima a frequência cardíaca máxima real de adultos mais velhos; a equação que descreveu melhor os dados foi 208 menos 0,7 vezes a idade.
O segundo é mais sério. Iannetta e colaboradores mediram, em 100 pessoas, em que percentual da frequência cardíaca máxima cada uma atingia o limiar de lactato. A faixa encontrada foi de 60% a 90%. Para o estado estável máximo de lactato, de 75% a 97%.
Traduzindo: o mesmo percentual de frequência cardíaca coloca uma pessoa em esforço leve e outra já acima do limiar. Os autores concluem que prescrever intensidade por percentuais fixos não controla adequadamente o estímulo metabólico.
Sem limiar medido, o teste da fala (manter frases completas) é um guia mais individual que a fórmula: responde ao corpo, não à idade.
Qual é o número esperado para a sua idade
O valor absoluto isolado diz pouco. O que situa é o percentil para idade e sexo. O registro FRIEND, montado a partir de testes cardiopulmonares em laboratórios dos Estados Unidos, é a referência mais usada.
Nele, a mediana de VO2 máximo de homens entre 20 e 29 anos foi de 48,0 mL/kg/min, caindo para 24,4 na faixa de 70 a 79 anos. Entre mulheres, 37,6 e 18,3 nas mesmas faixas. Ou seja: a mediana cai praticamente pela metade ao longo de cinco décadas.
Na atualização de 2022, o declínio médio observado foi de 13,5% por década em teste de esteira, cerca de 4,0 mL/kg/min a cada dez anos.
Duas ressalvas antes de comparar o seu número com essa tabela: são dados de população norte-americana, e são valores medidos em laboratório. Comparar diretamente com a estimativa do relógio mistura duas réguas diferentes.
Quanto dá para subir, e em quanto tempo
Esta é a parte que quase nunca é dita com número. Uma metanálise de Poon e colaboradores, com 14 estudos e 429 adultos de meia-idade e idosos, encontrou ganho médio de 2,26 mL/kg/min com treino intervalado e de 1,34 mL/kg/min com treino contínuo moderado. A vantagem do intervalado sobre o contínuo foi de 1,10 mL/kg/min.
Vale confrontar com os números anteriores. O 1 MET associado a 11% a 17% menos mortalidade equivale a 3,5 mL/kg/min, mais do que uma intervenção de poucas semanas entrega. E o erro do relógio, na casa de 15%, é maior que o ganho esperado de um bloco inteiro de treino.
Daí duas conclusões práticas. Mudar de faixa de risco é projeto de anos, não de meses. E a oscilação do número do relógio de uma semana para outra costuma ser ruído de medida, não progresso ou perda.
O que sustenta a mudança é a constância, e ela não compete com o treino de força: as duas se somam, como já detalhado em musculação e longevidade e em perda de massa muscular depois dos 40.
Perguntas frequentes
O VO2 máximo que aparece no meu relógio serve para alguma coisa?
Serve, desde que se saiba o que ele é. Trata-se de uma estimativa calculada a partir de frequência cardíaca e ritmo, não de uma medida de oxigênio. No estudo de validação do Apple Watch Series 7 contra analisador de gases, o erro percentual absoluto médio foi de 15,79% e a confiabilidade foi classificada como pobre. O valor tende a ser superestimado em quem tem condicionamento ruim e subestimado em quem tem condicionamento excelente. Como ordem de grandeza e acompanhamento de tendência ao longo de meses, é informação útil. Como número exato, não substitui medida em laboratório.
Preciso fazer ergoespirometria para começar a me exercitar?
Não é o que define o início de atividade física. A ergoespirometria tem indicações clínicas específicas, como investigar falta de ar ou fadiga sem causa aparente, diferenciar origem cardíaca de pulmonar, acompanhar cardiopatias e avaliar risco pré-operatório, além do uso em avaliação esportiva. A decisão de solicitar o exame depende de avaliação médica individual, que considera história clínica, sintomas, idade e condições associadas. Para a maioria das pessoas, a avaliação clínica antes de iniciar ou intensificar exercício não passa por esse teste.
Qual valor de VO2 máximo é considerado bom?
Depende de idade e sexo, e a comparação correta é por percentil, não por valor absoluto. No registro FRIEND, montado com testes cardiopulmonares nos Estados Unidos, a mediana de homens entre 20 e 29 anos foi de 48,0 mL/kg/min e de mulheres da mesma faixa, 37,6. Entre 70 e 79 anos, essas medianas caem para 24,4 e 18,3. O declínio médio observado foi de 13,5% por década em teste de esteira. São dados de população norte-americana e medidos em laboratório, o que não os torna metas individuais nem permite comparação direta com a estimativa de um relógio.
Fontes
- Lang JJ, Prince SA, Merucci K, et al. Cardiorespiratory fitness is a strong and consistent predictor of morbidity and mortality among adults: an overview of meta-analyses representing over 20.9 million observations from 199 unique cohort studies. Br J Sports Med. 2024;58(10):556-66.
- Ross R, Blair SN, Arena R, et al. Importance of Assessing Cardiorespiratory Fitness in Clinical Practice: A Case for Fitness as a Clinical Vital Sign: A Scientific Statement From the American Heart Association. Circulation. 2016;134(24):e653-99.
- Mandsager K, Harb S, Cremer P, Phelan D, Nissen SE, Jaber W. Association of Cardiorespiratory Fitness With Long-term Mortality Among Adults Undergoing Exercise Treadmill Testing. JAMA Netw Open. 2018;1(6):e183605.
- Caserman P, Yum S, Göbel S, Reif A, Matura S. Assessing the Accuracy of Smartwatch-Based Estimation of Maximum Oxygen Uptake Using the Apple Watch Series 7: Validation Study. JMIR Biomed Eng. 2024;9:e59459.
- Iannetta D, Inglis EC, Mattu AT, et al. A Critical Evaluation of Current Methods for Exercise Prescription in Women and Men. Med Sci Sports Exerc. 2020;52(2):466-73.
- Tanaka H, Monahan KD, Seals DR. Age-predicted maximal heart rate revisited. J Am Coll Cardiol. 2001;37(1):153-6.
- Kaminsky LA, Arena R, Myers J. Reference Standards for Cardiorespiratory Fitness Measured With Cardiopulmonary Exercise Testing: Data From the Fitness Registry and the Importance of Exercise National Database. Mayo Clin Proc. 2015;90(11):1515-23.
- Kaminsky LA, Arena R, Myers J, et al. Updated Reference Standards for Cardiorespiratory Fitness Measured with Cardiopulmonary Exercise Testing: Data from the Fitness Registry and the Importance of Exercise National Database (FRIEND). Mayo Clin Proc. 2022;97(2):285-93.
- Poon ET, Wongpipit W, Ho RS, Wong SH. Interval training versus moderate-intensity continuous training for cardiorespiratory fitness improvements in middle-aged and older adults: a systematic review and meta-analysis. J Sports Sci. 2021;39(17):1996-2005.
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