Menopausa

Reposição hormonal causa câncer de mama?

O aumento existe e é do esquema combinado: 8 casos a mais por 10.000 mulheres ao ano, somados aos 30 já esperados. 26% e 8 casos são o mesmo dado.

Em julho de 2002, um ensaio clínico foi interrompido antes do prazo e a manchete deu a volta ao mundo: reposição hormonal aumenta em 26% o risco de câncer de mama. Mais de vinte anos depois, essa frase ainda é a primeira coisa que aparece quando uma mulher pesquisa o assunto, e ela não está errada. O que falta nela é a informação que muda a decisão: 26% de quê.

Os dois números estão certos e medem coisas diferentes

Vinte e seis por cento é risco relativo. Oito casos a mais a cada 10.000 mulheres por ano é o mesmo achado, escrito em risco absoluto.

O estudo WHI, publicado em 2002, encontrou risco 1,26 vez maior de câncer de mama invasivo no grupo que usou estrogênio combinado com progestagênio, com intervalo de confiança de 1,00 a 1,59. O mesmo artigo traduz esse resultado: 8 casos invasivos a mais por 10.000 mulheres-ano.

Esse excesso se soma a uma incidência que já existe. O Consenso Brasileiro de Terapêutica Hormonal do Climatério 2024, da SOBRAC com a Febrasgo, usa como referência 30 novos casos a cada 10.000 mulheres por ano na população geral. Oito sobre trinta é justamente 26%. É o mesmo dado, em duas escalas.

O consenso conclui, com concordância unânime dos relatores, que o risco associado à terapia hormonal é pequeno, com incidência anual de menos de um caso por 1.000 mulheres. E recomenda que o risco seja comunicado à paciente em números absolutos, porque o risco relativo produz preocupação desproporcional ao que de fato acontece.

O que o WHI testou, e em quem

O WHI não testou “reposição hormonal”. Testou uma combinação específica, numa população específica, com um objetivo específico, e os três recortes explicam a confusão que sobrou.

A combinação era estrogênio equino conjugado com acetato de medroxiprogesterona, tomada por via oral. As participantes eram 16.608 mulheres com útero intacto, entre 50 e 79 anos. E o objetivo declarado não era tratar sintomas de menopausa: era testar se hormônio prevenia doença cardiovascular crônica em mulheres saudáveis.

O detalhe que mais pesa é a idade. A média das participantes era de 63,4 anos, com desvio padrão de 7,2, segundo o seguimento de longo prazo publicado em 2020. A menopausa costuma ocorrer por volta dos 51 anos. O estudo avaliou, portanto, mulheres que em média estavam mais de uma década além da menopausa, e não a mulher que chega ao consultório no começo da transição, com fogachos e sono fragmentado.

Vale registrar o que o mesmo estudo mostrou sobre mortalidade: em 18 anos de seguimento, a mortalidade por qualquer causa foi de 27,1% no grupo hormônio e 27,6% no placebo, sem diferença estatística.

O braço que a manchete não contou

O WHI tinha dois braços, e só um virou notícia. O segundo incluiu 10.739 mulheres histerectomizadas, que receberam estrogênio isolado, sem progestagênio, porque não havia endométrio a proteger.

Nesse braço o resultado foi outro. Na publicação de 2004, o risco de câncer de mama foi 0,77, com intervalo de 0,59 a 1,01, ou seja, uma redução que não alcançou significância estatística. No seguimento de mais de 20 anos, essa diferença se firmou: incidência anual de 0,30% no grupo estrogênio contra 0,37% no placebo, risco 0,78 com intervalo de 0,65 a 0,93.

E há um dado que raramente é mencionado. Nesse mesmo braço, a mortalidade por câncer de mama também foi menor: 0,031% ao ano contra 0,046%, risco 0,60 com intervalo de 0,37 a 0,97.

Repare no que isso reorganiza. No único grande ensaio randomizado do tema, o sinal de aumento veio do esquema com progestagênio, não do estrogênio em si. Tratar “reposição hormonal” como bloco único distorce os dois lados da conta.

Por que os estudos observacionais discordam do ensaio

Aqui a resposta não é limpa, e vale dizer isso. Fora do ensaio randomizado, o estrogênio isolado também aparece associado a aumento de risco.

A maior metanálise do tema, publicada no Lancet em 2019, reuniu dados individuais de 108.647 mulheres que desenvolveram câncer de mama. Entre usuárias atuais, o estrogênio isolado apareceu com risco 1,17 nos primeiros quatro anos de uso e 1,33 entre cinco e catorze anos. O esquema combinado, na mesma análise, foi 1,60 e 2,08.

O Consenso Brasileiro registra as duas coisas lado a lado, sem reconciliá-las artificialmente: o ensaio randomizado não mostrou aumento com estrogênio isolado, os estudos de observação mostram aumento, embora menor que o do esquema combinado.

A diferença de desenho explica parte disso. No ensaio, a mulher é sorteada para o tratamento, o que equilibra características conhecidas e desconhecidas entre os grupos. No estudo observacional, quem usa hormônio difere de quem não usa em peso, acesso a exames e frequência de rastreio, e o tempo de uso costuma ser bem maior. Nenhum ajuste estatístico elimina isso por completo.

O tipo de progestagênio pesa mais que a via

É comum ouvir que a via transdérmica seria mais segura para a mama que a oral. Para trombose isso é verdade. Para câncer de mama, a evidência aponta outro fator: qual progestagênio acompanha o estrogênio.

Na coorte francesa E3N, com 80.377 mulheres na pós-menopausa e 2.354 casos de câncer invasivo, o risco variou conforme o progestagênio usado. Com progesterona, foi 1,00, com intervalo de 0,83 a 1,22. Com didrogesterona, 1,16. Com os demais progestagênios, 1,69. E o mesmo estudo não encontrou diferença de risco entre estrogênio oral e transdérmico.

O Consenso Brasileiro é deliberadamente cauteloso aqui, e vale reproduzir a cautela: os dados não permitem afirmar taxativamente diferenças conforme tipo, dose e via, embora haja indicações de que a progesterona micronizada e a didrogesterona ofereçam risco menor. Nenhum ensaio randomizado mediu incidência de câncer comparando os dois.

Onde a via de fato decide é no risco tromboembólico. Em um estudo britânico com 80.396 casos, a terapia oral se associou a risco 1,58 de trombose venosa, enquanto a transdérmica não mostrou associação, com 0,93 e intervalo de 0,87 a 1,01.

A janela de oportunidade é do coração, não da mama

A janela de oportunidade é um conceito real e bem estabelecido, e é cardiovascular. Aplicá-lo à mama é o erro mais comum do tema.

O Consenso Brasileiro a define pelo tempo desde a menopausa: aberta até dez anos depois dela e, sem essa data, até os 60 anos. A ordem costuma ser invertida, mas a idade é o critério substituto.

O que sustenta a janela são desfechos de coração. Na análise do WHI por tempo desde a menopausa, o risco de doença coronariana foi 0,76 em quem iniciou com menos de dez anos de menopausa e 1,28 em quem iniciou com vinte anos ou mais. O risco de acidente vascular cerebral subiu igual em todas as faixas.

Para a mama, não há desconto. A metanálise do Lancet mostra risco parecido dos 40 aos 59 anos de início, com atenuação apenas depois dos 60. E uma análise do intervalo entre menopausa e início sugere risco mamário maior em quem começa logo após a menopausa e segue com o esquema combinado por anos. Começar cedo protege o coração, não a mama.

Tempo de uso é a variável que mais move o número

Se existe um fator que muda a conta de forma consistente em todos os desenhos de estudo, é a duração do uso. O risco não é um interruptor que liga na primeira caixa.

A metanálise do Lancet traduz isso em números que dá para visualizar. Para cinco anos de uso iniciado aos 50 anos, o excesso de casos entre 50 e 69 anos seria de cerca de um caso a mais a cada 50 usuárias com estrogênio mais progestagênio diário, um a cada 70 com progestagênio intermitente e um a cada 200 com estrogênio isolado. Dez anos de uso dobrariam esses excessos.

Dois detalhes completam o quadro. O primeiro é que parte do excesso persiste por mais de dez anos depois da interrupção, com magnitude proporcional ao tempo de uso anterior. O segundo é que, após um ano de uso, praticamente não há excesso mensurável.

O Consenso Brasileiro converge: depois da suspensão, os riscos tendem a se reduzir, aproximando-se dos de quem nunca usou. Duração não é detalhe de protocolo, é a principal alavanca da conversa sobre risco.

O efeito no rastreio que quase ninguém menciona

Há um risco pouco discutido e que não aparece nas manchetes: o esquema combinado atrapalha a leitura da mamografia. Isso importa porque interfere no diagnóstico precoce, que é o que mais muda desfecho em câncer de mama.

No braço combinado do WHI, a proporção de mamografias alteradas em um ano foi de 9,4% no grupo hormônio contra 5,4% no placebo. Os tumores diagnosticados nesse grupo também eram, em média, maiores (1,7 cm contra 1,5 cm) e em estádio mais avançado.

O motivo é a densidade mamária. O Consenso Brasileiro registra que a densidade mamográfica é significativamente maior em usuárias de terapia combinada, o que pode comprometer a interpretação do exame, gerar mais biópsias e atrasar o diagnóstico, e que esse efeito não aparece com estrogênio isolado.

O impacto foi medido em população. Em uma coorte britânica com 122.355 mulheres rastreadas, a sensibilidade da mamografia foi de 83,0% entre usuárias atuais de terapia hormonal e de 92,1% entre quem nunca usou. Não é motivo para não tratar. É motivo para manter o rastreio rigorosamente em dia.

Histórico na família não é histórico pessoal

Essas duas situações são tratadas como se fossem uma só, e a diferença entre elas muda a conduta.

Histórico pessoal de câncer de mama é contraindicação. A Febrasgo, em nota conjunta das comissões de Climatério e de Mastologia, reafirmou em 2025 que o câncer de mama continua contraindicando terapia hormonal, e a Sociedade Brasileira de Mastologia se manifestou no mesmo sentido. O Consenso Brasileiro acrescenta uma nuance honesta: a contraindicação existe mais pela falta de evidência de segurança que por evidência clara de dano.

Histórico familiar é outra conversa. Ele não consta da lista de contraindicações formais, que inclui sangramento vaginal sem causa definida, doença hepática, câncer sensível a estrogênio, doença coronariana, acidente vascular cerebral, infarto e doença tromboembólica.

Isso não torna o antecedente familiar irrelevante. Diante de história familiar significativa, o Consenso Brasileiro é reservado, porque a evidência nessa população é insuficiente e o risco de base já é elevado. É o tipo de situação em que a decisão deixa de ser protocolar e passa a ser individual, discutida caso a caso e, quando pertinente, com o mastologista.

O que mudou nas bulas, e o que não mudou

Em novembro de 2025 a agência regulatória americana iniciou, e em fevereiro de 2026 aprovou nas primeiras bulas, a retirada da tarja preta das terapias hormonais da menopausa. A notícia circulou como se o alerta de câncer de mama tivesse sido cancelado. Não foi.

O que a FDA determinou foi remover da tarja preta as menções a doença cardiovascular, câncer de mama e provável demência, mantendo a tarja de câncer de endométrio apenas nos produtos de estrogênio sistêmico isolado. A justificativa foi a já discutida: a idade média das participantes do WHI não correspondia à mulher que hoje inicia tratamento.

O que não mudou é a parte que importa. A advertência sobre câncer de mama saiu da tarja e permanece no corpo da bula, agora com dados estratificados por idade, e o câncer de mama continua listado como contraindicação.

A Febrasgo comentou com uma ressalva que vale repetir: a mudança vale para os Estados Unidos, no Brasil quem regula bula é a Anvisa, e a retirada dos alertas não significa liberação irrestrita, e sim prescrição criteriosa.

O que entra na decisão

Nenhum dos números acima decide sozinho. Eles descrevem populações, e o que se aplica a uma mulher específica depende de sintomas, idade, tempo de menopausa, histórico pessoal e familiar, exames e do que ela considera aceitável.

O Consenso Brasileiro orienta que o aconselhamento inclua os fatores de risco que a paciente já carrega e pode modificar: obesidade, consumo de álcool e sedentarismo. Na reanálise de 53 estudos epidemiológicos, o risco de câncer de mama subiu 7,1% para cada dose diária adicional de álcool, efeito que se acumula por décadas e quase nunca entra na mesma conversa em que se discute hormônio.

A propedêutica antes de iniciar também está definida: anamnese e exame físico completos, além do rastreamento mamário conforme as diretrizes brasileiras. É a mesma lógica de distinguir terapia hormonal com indicação de rótulo comercial, ou de desmontar a dúvida sobre se a reposição hormonal engorda: diagnóstico antes de conduta.

Este texto não indica nem desaconselha terapia hormonal, e não substitui consulta. Reconhecer o que cada número mede serve para que a conversa com o médico comece do lugar certo.

Perguntas frequentes

Reposição hormonal causa câncer de mama?

O que a evidência mostra é um aumento pequeno de risco associado ao esquema que combina estrogênio com progestagênio, e não um efeito de causa direta. No estudo WHI, esse aumento correspondeu a 8 casos invasivos a mais por 10.000 mulheres por ano, somados aos cerca de 30 casos já esperados nessa mesma população. No braço que usou estrogênio isolado, em mulheres histerectomizadas, o mesmo estudo não encontrou aumento, e no seguimento de mais de 20 anos observou incidência e mortalidade por câncer de mama menores que no placebo. A decisão sobre terapia hormonal depende de avaliação individual.

Quem tem caso de câncer de mama na família pode fazer reposição hormonal?

Histórico familiar não é o mesmo que histórico pessoal e não consta da lista de contraindicações formais à terapia hormonal. Ainda assim, diante de história familiar significativa, o Consenso Brasileiro de Terapêutica Hormonal do Climatério 2024 é reservado, porque a evidência nessa população específica é insuficiente e o risco de base já é maior. É uma situação que exige avaliação individual, com a história completa, e frequentemente discussão com o mastologista. Nenhum texto educativo substitui essa avaliação.

A reposição hormonal transdérmica tem menos risco de câncer de mama que a oral?

Para trombose venosa a diferença entre as vias é bem documentada, com risco menor na via transdérmica. Para câncer de mama a evidência é outra: a coorte francesa E3N não encontrou diferença de risco entre estrogênio oral e transdérmico, e o que variou nesse estudo foi o tipo de progestagênio associado. O Consenso Brasileiro de 2024 registra que os dados disponíveis não permitem afirmar taxativamente diferenças de risco de câncer de mama conforme tipo, dose e via de administração.

Depois de quanto tempo de uso o risco começa a subir?

O tempo de uso é a variável que mais muda o resultado. Na metanálise publicada no Lancet em 2019, o risco entre usuárias atuais foi maior no período de cinco a catorze anos de uso do que nos quatro primeiros anos, tanto no esquema combinado quanto no estrogênio isolado. Com menos de um ano de uso, praticamente não houve excesso mensurável. Parte do excesso persiste por mais de dez anos após a interrupção, em magnitude proporcional ao tempo de uso anterior.

Quem já teve câncer de mama pode fazer terapia hormonal?

Não. Câncer de mama é contraindicação ao uso de terapia hormonal sistêmica, posição reafirmada em 2025 pela Febrasgo, em nota conjunta das comissões de Climatério e de Mastologia, e pela Sociedade Brasileira de Mastologia. O Consenso Brasileiro de 2024 registra que essa contraindicação decorre mais da falta de evidência de segurança do que de evidência clara de dano. Existem alternativas não hormonais para sintomas do climatério, e a condução desses casos envolve a equipe que acompanha o tratamento oncológico.

Fontes

Energia Vital · Formosa-GO

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Este conteúdo é informativo e não substitui a consulta médica. Na Energia Vital, em Formosa-GO, a avaliação de saúde hormonal na menopausa é individualizada e vem antes de qualquer proposta de conduta: história clínica, exame físico e, quando indicados, exames complementares.

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