Pré-diabetes
Glicemia 108, glicada 5,8: o que fazer com um laudo de pré-diabetes
Os critérios que definem pré-diabetes, o exame de 1 hora que o laudo comum não traz e o que a evidência mostra que muda o risco.
Glicemia de jejum 108 mg/dL e hemoglobina glicada 5,8% não são diabetes. Os dois valores caem na faixa de pré-diabetes, que vai de 100 a 125 mg/dL no jejum e de 5,7% a 6,4% na glicada. Essa é a resposta rápida, e ela costuma vir acompanhada de um comentário igualmente rápido: “está limítrofe, maneire no doce, repete daqui a um ano”.
O problema não é o conselho. É que ele não é um plano. Um laudo de pré-diabetes carrega informação sobre risco futuro, sobre o que já aconteceu no pâncreas e sobre um exame que raramente aparece no pedido, e nada disso cabe numa conversa de dois minutos.
Os critérios completos, não só jejum e glicada
A diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes define pré-diabetes por quatro critérios, e a maioria dos laudos usa dois. Glicemia de jejum de 100 a 125 mg/dL e hemoglobina glicada de 5,7% a 6,4% são os conhecidos. Os outros dois vêm do teste de tolerância à glicose oral (TTGO): a glicemia de 2 horas entre 140 e 199 mg/dL, e a glicemia de 1 hora entre 155 e 208 mg/dL. Acima de cada faixa começa o critério de diabetes, respectivamente 126 mg/dL, 6,5%, 200 mg/dL e 209 mg/dL.
Duas observações mudam a leitura desse laudo. A primeira: quando só um exame vem alterado, ele precisa ser repetido para confirmação. A segunda, mais importante, é que pré-diabetes não é um grupo uniforme. Quem está com valores encostados no ponto de corte do diabetes tem propensão maior a progredir do que quem está no começo da faixa, e a própria diretriz sugere reavaliar mais cedo nesses casos.
O exame de 1 hora que o laudo comum não traz
Existe uma recomendação da diretriz brasileira que raramente chega a quem está com o laudo na mão. Em pessoas que já têm pré-diabetes definido por glicemia de jejum e hemoglobina glicada, exatamente o caso de 108 e 5,8, ela recomenda fazer também o TTGO de 1 hora: para identificar diabetes ainda não detectado, se der 209 mg/dL ou mais, ou para estimar risco futuro, se ficar entre 155 e 208 mg/dL. Os dois números do laudo inicial podem não ser a última palavra sobre o caso.
O teste é o de sempre, com uma coleta a mais. Jejum de 8 a 12 horas, ingestão de 75 g de glicose diluída em água, coleta de sangue em jejum e nova coleta aos 60 minutos. Um detalhe do preparo costuma passar batido e invalida o resultado: nos três dias anteriores é preciso comer pelo menos 150 g de carboidrato por dia. Quando há indicação de TTGO, a diretriz recomenda o de 1 hora por ser superior e mais prático, e mantém o de 2 horas como alternativa.
Por que uma hora enxerga o que duas horas ainda não mostram
A glicose sobe e desce depois da sobrecarga, e o ponto de 1 hora captura o pico. Quem já tem comprometimento na primeira fase de liberação de insulina atinge valores altos ali antes que qualquer alteração apareça no jejum, na glicada ou na medida de 2 horas. O posicionamento da International Diabetes Federation que originou o critério afirma essa antecedência, mas não diz de quanto tempo se trata.
O número vem de uma análise de 201 adultos de uma população indígena do sudoeste dos Estados Unidos, acompanhados de 6 a 10 anos com pelo menos três TTGO. Entre os 43 que desenvolveram pré-diabetes pelos dois critérios, 74% cruzaram os 155 mg/dL na primeira hora antes de chegar aos 140 mg/dL na segunda, com mediana de 1,7 ano de antecedência. O recorte precisa vir junto: amostra pequena, população de risco muito alto, e variação individual larga, com intervalo interquartil de menos 0,25 a 4,59 anos.
Pré-diabetes não é “quase nada”
O prefixo “pré” sugere que ainda não aconteceu nada, e é aí que o laudo é subestimado. Um estudo de autópsia com 124 pâncreas mediu o volume relativo de células beta, as produtoras de insulina, e encontrou déficit de 40% nas pessoas com obesidade e glicemia de jejum alterada, na comparação com pessoas com obesidade e glicemia normal. Nas que já tinham diabetes tipo 2, o déficit chegava a 63%.
Ou seja: quando o exame começa a se alterar, parte da capacidade de produzir insulina já se foi. Isso não é motivo para desânimo, é justamente o argumento a favor de agir enquanto a maior parte ainda está lá. E ajuda a explicar por que o pré-diabetes já vem associado a risco cardiovascular aumentado antes de qualquer diagnóstico de diabetes: a alteração metabólica é anterior ao número que fecha o critério.
O que a evidência mostra que muda o desfecho
O dado mais robusto sobre o que fazer com esse laudo tem mais de vinte anos e continua sendo a referência. O Diabetes Prevention Program sorteou 3.234 adultos com glicemia alterada para placebo, metformina ou um programa de mudança de estilo de vida com duas metas declaradas: perder pelo menos 7% do peso e fazer pelo menos 150 minutos de atividade física por semana. Com seguimento médio de 2,8 anos, o grupo de estilo de vida teve 58% menos casos de diabetes (IC 95% 48 a 66) e o grupo da metformina, 31%. A mudança de estilo de vida foi significativamente mais eficaz que o medicamento.
São as mesmas duas metas que a diretriz brasileira recomenda hoje para quem tem pré-diabetes. Com a ressalva de sempre: resultados variam de pessoa para pessoa, e a decisão sobre associar ou não medicamento depende de avaliação clínica individual.
Voltar ao normal existe, e não se chama cura
Dá para sair da faixa. No seguimento de longo prazo do mesmo estudo, quem voltou à regulação normal da glicose em algum momento teve risco de diabetes 56% menor do que quem permaneceu em pré-diabetes o tempo todo (HR 0,44; IC 95% 0,37 a 0,55), e esse efeito independeu do grupo de tratamento original. Voltar ao normal, ainda que temporariamente, mudou a trajetória.
O que não aparece na literatura é a palavra cura. Quando o quadro já evoluiu para diabetes tipo 2 e a glicose volta à faixa normal, o termo que um consenso internacional convencionou é remissão, definida como hemoglobina glicada abaixo de 6,5% medida pelo menos três meses depois de suspender a medicação para baixar a glicose. A escolha da palavra é técnica e tem consequência prática: remissão pressupõe observação continuada, porque a perda de função das células beta não foi desfeita.
O que fazer com o laudo na prática
O primeiro passo é o mais óbvio e o mais ignorado: levar o resultado a uma consulta em vez de pesquisar o número solto. Glicemia de jejum e hemoglobina glicada respondem perguntas diferentes e sofrem interferências diferentes, e a diretriz é explícita ao afirmar que todo método tem limitação. A glicada, por exemplo, tem menor sensibilidade diagnóstica que os demais.
Da consulta costumam sair três decisões. Se cabe repetir ou complementar o exame, incluindo a possibilidade do TTGO-1h. O que mais investigar no mesmo eixo, já que pré-diabetes raramente aparece sozinho. E qual plano de alimentação, treino e sono é executável na rotina de quem vai executá-lo, com metas revisadas ao longo do tempo. Para pré-diabetes confirmado, a diretriz recomenda reavaliação em 12 meses, e mais cedo, entre 6 e 12 meses, quando os valores estão próximos do corte do diabetes.
Perguntas frequentes
Glicemia de jejum 108 mg/dL já é diabetes?
Não. Pelos critérios da Sociedade Brasileira de Diabetes, a glicemia de jejum entre 100 e 125 mg/dL caracteriza pré-diabetes, e o critério de diabetes começa em 126 mg/dL. Um resultado isolado alterado precisa ser repetido para confirmação, porque a glicemia de jejum sofre interferência de condições agudas e de variação entre coletas. A leitura do valor depende do conjunto do quadro clínico e cabe ao médico que acompanha o caso.
Hemoglobina glicada 5,8% é motivo de preocupação?
É um valor dentro da faixa de pré-diabetes, que vai de 5,7% a 6,4%. Preocupação não é a palavra mais útil: o que esse número indica é risco aumentado de evoluir para diabetes, e é uma informação acionável justamente por aparecer cedo. A hemoglobina glicada reflete a média da glicose de alguns meses, mas tem menor sensibilidade diagnóstica que os outros métodos e não se interpreta isoladamente. A avaliação médica é o que define conduta.
O que é a glicemia de 1 hora no teste de tolerância à glicose?
É a medida de glicose colhida 60 minutos após a ingestão da sobrecarga de glicose, em vez dos 120 minutos tradicionais. A diretriz brasileira, seguindo posicionamento da International Diabetes Federation, adota 155 a 208 mg/dL como detecção de pré-diabetes e 209 mg/dL ou mais como critério de diabetes, e recomenda o teste de 1 hora quando há indicação de fazer o TTGO. A indicação do exame é decisão médica, não pedido de laboratório por conta própria.
Pré-diabetes tem cura?
O termo usado na literatura não é cura. Fala-se em reversão à regulação normal da glicose, e ela é possível e mensurável: no seguimento de longo prazo do Diabetes Prevention Program, quem voltou à regulação normal em algum momento teve risco de diabetes 56% menor do que quem permaneceu em pré-diabetes o tempo todo. Quando o quadro já evoluiu para diabetes tipo 2 e a glicose volta à faixa normal, o termo convencionado por consenso internacional é remissão, definida como hemoglobina glicada abaixo de 6,5% medida pelo menos três meses após a suspensão da medicação. A palavra importa porque parte da função das células produtoras de insulina não é recuperada, e o acompanhamento continua necessário.
Quem tem pré-diabetes precisa tomar remédio?
Não necessariamente, e essa decisão é individual. No Diabetes Prevention Program, a mudança de estilo de vida com metas de pelo menos 7% de perda de peso e pelo menos 150 minutos semanais de atividade física reduziu a incidência de diabetes em 58%, resultado significativamente melhor que o da metformina, que reduziu 31%. Isso não significa que medicamento nunca tenha lugar: existem situações em que ele é indicado. Quem avalia indicação, contraindicação e acompanhamento é o médico, caso a caso.
De quanto em quanto tempo repetir os exames com pré-diabetes?
A diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes recomenda reavaliação após 12 meses para pessoas com pré-diabetes confirmado. Quando os valores estão muito próximos dos pontos de corte que definem diabetes, uma reavaliação mais precoce, entre 6 e 12 meses, pode ser considerada, porque esse subgrupo tem propensão maior a progredir. O intervalo adequado para cada pessoa depende dos valores encontrados, dos fatores de risco presentes e da avaliação clínica.
Fontes
- Sociedade Brasileira de Diabetes. Diagnóstico de diabetes mellitus. Diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes, Ed. 2025.
- Sociedade Brasileira de Diabetes. Atividade física e exercício no pré-diabetes e DM2. Diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes, Ed. 2025.
- Bergman M, Manco M, Satman I, et al. International Diabetes Federation Position Statement on the 1-hour post-load plasma glucose for the diagnosis of intermediate hyperglycaemia and type 2 diabetes. Diabetes Res Clin Pract. 2024;209:111589.
- Ha J, Chung ST, Bogardus C, Jagannathan R, Bergman M, Sherman AS. One-hour glucose is an earlier marker of dysglycemia than two-hour glucose. Diabetes Res Clin Pract. 2023;203:110839.
- Butler AE, Janson J, Bonner-Weir S, Ritzel R, Rizza RA, Butler PC. Beta-cell deficit and increased beta-cell apoptosis in humans with type 2 diabetes. Diabetes. 2003;52(1):102-10.
- Knowler WC, Barrett-Connor E, Fowler SE, et al. Reduction in the incidence of type 2 diabetes with lifestyle intervention or metformin. N Engl J Med. 2002;346(6):393-403.
- Perreault L, Pan Q, Mather KJ, Watson KE, Hamman RF, Kahn SE. Effect of regression from prediabetes to normal glucose regulation on long-term reduction in diabetes risk: results from the Diabetes Prevention Program Outcomes Study. Lancet. 2012;379(9833):2243-51.
- Riddle MC, Cefalu WT, Evans PH, et al. Consensus Report: Definition and Interpretation of Remission in Type 2 Diabetes. Diabetes Care. 2021;44(10):2438-44.
Energia Vital · Formosa-GO
Recebeu um laudo com glicemia ou glicada alteradas?
A equipe da Energia Vital, em Formosa-GO, avalia o laudo dentro do quadro clínico completo antes de definir qualquer conduta.