Saúde hormonal
Chip da beleza: o que diz a regra e o que falta a quem já usa
A regra mudou duas vezes em 34 dias e hoje separa estética de terapêutica pela finalidade declarada. A forma implante da gestrinona nunca teve registro.
Se você procurou saber se o chip da beleza é proibido, encontrou as duas respostas. Uma diz que a Anvisa suspendeu tudo. A outra diz que continua liberado quando há indicação médica. As duas já foram verdade, e a distância entre elas é de 34 dias. Entender o que mudou nesse intervalo explica quase toda a confusão que sobrou, e também explica por que a pergunta mais importante sobre a gestrinona quase nunca aparece.
A regra mudou duas vezes em pouco mais de um mês
Em 18 de outubro de 2024, a Anvisa publicou a Resolução-RE nº 3.915, que suspendeu a manipulação, a comercialização, a propaganda e o uso de implantes hormonais manipulados em todo o país. Foi essa medida que virou manchete, e é ela que a maior parte dos textos na internet ainda descreve como se fosse a regra atual.
Não é. Em 21 de novembro de 2024, a Resolução-RE nº 4.353 revogou expressamente a anterior e trocou o modelo. Saiu a proibição de tudo, entrou a proibição conforme a finalidade, acompanhada de exigências novas de controle. Essa é a norma que continua valendo em julho de 2026.
A troca não foi um recuo silencioso. A própria Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia registrou, ao comentar a mudança, que a nova resolução não aprova o uso de implantes hormonais e não afirma que eles sejam seguros. Ela apenas mudou o critério de quem pode manipular o quê.
O que está proibido hoje, e o que não está
O critério vigente é a finalidade. Está proibida a manipulação, a comercialização e o uso de implantes hormonais à base de esteroides anabolizantes ou hormônios androgênicos com finalidade estética, de ganho de massa muscular ou de melhora do desempenho esportivo. Essa proibição alcança todas as farmácias de manipulação do país.
Fora dessas três finalidades, a manipulação passou a ser admitida, desde que o insumo já tenha tido eficácia e segurança avaliadas pela Anvisa e a prescrição cumpra as exigências novas.
Há uma proibição que costuma passar despercebida e vale para os dois lados: a propaganda ao público em geral está vedada para todos os implantes hormonais manipulados, inclusive os de finalidade terapêutica. Anúncio de implante hormonal manipulado dirigido a paciente é irregular independentemente da indicação alegada.
No plano ético, a régua é anterior e mais ampla. A Resolução CFM nº 2.333/2023 já vedava o uso de esteroides anabolizantes ou hormônios androgênicos com finalidade estética e de desempenho esportivo, além da prescrição de testosterona sem comprovação diagnóstica de deficiência. É a régua que separa terapia hormonal com indicação de rótulo comercial.
O que passou a ser exigido na receita
As exigências criadas em novembro de 2024 são verificáveis pelo próprio paciente, e é por isso que vale conhecê-las. São quatro, e elas funcionam juntas.
A receita precisa trazer o código CID da condição clínica que justifica o tratamento. Precisa ser receita de controle especial, porque gestrinona, testosterona, oxandrolona e DHEA constam da lista C5 da Portaria SVS/MS nº 344/1998, a lista das substâncias anabolizantes. Essa receita precisa ser registrada pela farmácia no SNGPC, o sistema nacional de gerenciamento de produtos controlados. E precisa acompanhar um termo de esclarecimento em três vias, assinado pelo médico, pelo paciente e pela farmácia, ficando uma via em cada.
A resolução também criou corresponsabilidade da farmácia de manipulação, que passou a responder em caso de prescrição inadequada. Some-se a isso a notificação de eventos adversos.
Na prática, é o seguinte: se não há CID na receita e não há termo assinado, a conduta está fora da norma, qualquer que seja a explicação dada.
O detalhe da gestrinona que a discussão inteira ignora
Aqui está o ponto que quase nenhum texto sobre o assunto menciona, e ele é decisivo. A gestrinona tem uma via de uso estudada, e não é o implante.
O Parecer CFM nº 28/2022, aprovado em maio de 2022, registra que a gestrinona recebeu no Brasil dois registros em 1996 e 1997, ambos em cápsulas de 2,5 mg para tratamento de endometriose, e que esses registros caducaram em 2001 e 2002. Em julho de 2026, não há nenhum produto com gestrinona registrado na Anvisa, em nenhuma forma farmacêutica.
Sobre o implante, o parecer é ainda mais específico. Não foram encontrados estudos publicados do uso de gestrinona em implante para endometriose, e, nas palavras do documento, nunca houve registro dessa medicação na forma de implantes no Brasil nem referência de registro dessa apresentação em qualquer outro país.
A conclusão formal do CFM é que não há base científica que justifique o uso clínico de implantes de gestrinona para qualquer indicação, fora de estudo científico aprovado por comitê de ética. Não é uma ressalva sobre estética. É sobre qualquer indicação.
Por que o critério da finalidade virou um impasse
O desenho da norma tem uma fragilidade que o Ministério Público Federal apontou por escrito. Em dezembro de 2025, o MPF recomendou à Anvisa suspender novamente a manipulação, a comercialização e o uso desses implantes até que estudos de segurança fossem concluídos.
O argumento central foi o critério: separar uso terapêutico de estético pela finalidade declarada pelo prescritor seria insuficiente e facilmente contornável, por depender de uma declaração e não de parâmetro técnico verificável. O MPF apontou ainda a ausência de estudos farmacocinéticos robustos sobre esses implantes.
A Anvisa não acatou. Em fevereiro de 2026, ao vencer o prazo do próprio procedimento, o MPF registrou que não havia elementos suficientes nem para arquivar o caso nem para ir a juízo, e converteu o procedimento em inquérito civil, mantendo a agência sob apuração por eventual inconsistência regulatória. A regra da finalidade continua em vigor.
Vale ler isso com honestidade: nenhuma decisão judicial derrubou a norma, e recomendação do MPF não vincula a agência. O que existe é uma divergência aberta entre dois órgãos públicos sobre o mesmo critério.
A promessa de emagrecimento é onde a evidência é mais clara
Se há um ponto em que a literatura não deixa margem, é este. E ele vale a pena porque o emagrecimento é o que mais se vende.
O Consenso Global sobre Terapia com Testosterona em Mulheres, assinado por onze sociedades internacionais em 2019, afirma com o nível máximo de evidência que não há efeito demonstrado da testosterona em dose fisiológica sobre massa magra, gordura corporal total ou força muscular. O mesmo documento registra, no mesmo nível, ausência de efeito sobre bem-estar geral.
A metanálise que o sustenta reuniu 36 ensaios randomizados e 8.480 mulheres. O achado sobre peso é o oposto do prometido: houve aumento, não redução.
Para a gestrinona especificamente, a direção é a mesma. Uma revisão sistemática de 2025, com 32 estudos, encontrou ganho de peso significativo, de 0,9 a 8 kg, em cerca de 40% das pacientes. Os autores anotam que o uso para emagrecer é contradito pelos achados, no mesmo espírito da dúvida sobre se a reposição hormonal engorda. E para lipedema, outra revisão buscou em seis bases e encontrou zero estudos.
O que o implante faz com a dose
O problema do implante não é apenas qual hormônio ele libera. É quanto, e por quanto tempo, sem possibilidade de ajuste.
Um estudo com 539 mulheres na pós-menopausa comparou 384 usuárias de implante manipulado com 155 usuárias de terapia hormonal registrada. O pico médio de testosterona foi de 194 ng/dL no grupo do implante, contra 15,6 ng/dL no grupo da terapia registrada. Para referência, a faixa fisiológica feminina usada pelo Colégio Americano de Ginecologia e Obstetrícia é de 20 a 80 ng/dL. Nove mulheres passaram de 400 ng/dL.
Os desfechos clínicos acompanharam. Efeitos adversos ocorreram em 57,6% do grupo do implante contra 14,8% do grupo registrado. Entre as que tinham útero, houve sangramento uterino anormal em 55,3% contra 15,2%, e histerectomia em 20,3% contra 6,3%.
Uma em cada cinco mulheres com implante acabou submetida a histerectomia. É esse o significado prático de farmacocinética imprevisível.
O que é reversível e o que não é
Essa distinção quase nunca aparece nas listas de efeitos colaterais, e é a informação que mais pesa numa decisão.
Acne e oleosidade de pele são transitórias e tendem a melhorar. Hirsutismo é o efeito de maior magnitude numérica, mas é o mais manejável, e responde a métodos de remoção. Amenorreia é reversível.
Do outro lado da linha estão três efeitos que não regridem. A alopecia androgenética, uma vez estabelecida, segue a lógica da calvície de padrão masculino e não volta atrás com a suspensão. A clitoromegalia é considerada irreversível. E o engrossamento da voz é o desfecho mais bem documentado nesse grupo: uma revisão de escopo de 2025 descreve o efeito como dependente de dose e duração e potencialmente irreversível, com alterações estruturais e perda de extensão vocal.
Vale registrar um detalhe do Consenso Global que costuma ser citado pela metade. Ele afirma que a testosterona não se associa a alopecia, clitoromegalia ou mudança de voz, mas essa afirmação vem condicionada à dose fisiológica. Nas concentrações que os implantes produzem, a condição não se cumpre.
O implante não foi desenhado para ser removido
Esta é a diferença estrutural entre o implante e as outras vias, e raramente é explicada antes da aplicação.
O ACOG Clinical Consensus nº 6, de 2023, é direto: diferentemente de cremes e comprimidos, que podem simplesmente ser interrompidos, o pellet não é desenhado para ser removido, e sim para se dissolver com o tempo. Pela falta de dados de segurança e pela impossibilidade de remoção, o documento recomenda outras apresentações em vez da terapia por implante.
A exposição não termina quando a pessoa decide parar. Com implantes de testosterona, os níveis podem permanecer na faixa terapêutica por cerca de quatro meses após uma única aplicação, e o produto costuma se esgotar por volta do sexto mês. Quem repõe o implante a cada retorno dos sintomas tende a acumular nível de base.
Para o implante de gestrinona, o dado sequer existe. O primeiro ensaio desenhado para caracterizar a farmacocinética desse produto foi publicado como protocolo em 2025 e segue em andamento. Não há publicação que permita dizer a uma paciente por quanto tempo a gestrinona do implante dela seguirá circulando.
O que faz sentido acompanhar em quem já usa
Existe um vácuo aqui, e ele é honesto de reconhecer. Anvisa, CFM, SBEM e Febrasgo proibiram, condenaram ou desaconselharam a prescrição, mas nenhum deles publicou orientação clínica sobre o que fazer com o implante que já está no corpo. A única orientação oficial dirigida a quem usa é procurar o médico e notificar eventos adversos no sistema da própria agência.
O que a literatura internacional sustenta é razoavelmente convergente. A remoção em geral não é a conduta, porque o dispositivo não foi feito para isso. O caminho usual é acompanhar até o esgotamento, com avaliação clínica e laboratorial.
Entre os itens com base para entrar nessa avaliação estão a dosagem de testosterona total por espectrometria de massas, e não por imunoensaio direto, que é pouco confiável na faixa feminina, além de hemograma, perfil lipídico com atenção ao HDL, transaminases, pressão arterial e avaliação ginecológica. O registro objetivo dos sinais de androgenização, incluindo a voz, também tem base.
Nada disso é prescrição. É o mapa do que costuma ser discutido numa consulta, e cada caso é avaliado individualmente.
Onde a Energia Vital está nessa conversa
Vale dizer com clareza, porque é pergunta legítima de quem lê isso no site de uma clínica que cuida de saúde hormonal: a Energia Vital não trabalha com implante hormonal manipulado. Não prescreve e não aplica, em nenhuma indicação.
O motivo não é o rótulo de manipulado. É a combinação que só o implante cria: uma dose que não se ajusta depois de aplicada, um perfil de liberação não caracterizado em estudo publicado e um dispositivo que não foi projetado para ser retirado. Quando aparece um efeito indesejado, falta o recurso mais básico da terapia hormonal, que é reduzir ou suspender.
A condução aqui é deliberadamente conservadora. A terapia hormonal só entra quando há indicação clínica que a justifique, e quando entra, é pela menor dose eficaz, em via que permita ajuste e interrupção, com reavaliação periódica. Quando a avaliação mostra que não há indicação, essa também é uma resposta.
Se você já colocou um implante, isso não é motivo para pânico nem para decisão apressada. É motivo para avaliação com quem vai olhar o quadro inteiro.
Perguntas frequentes
O chip da beleza está proibido no Brasil?
Depende da finalidade. Desde a Resolução-RE nº 4.353/2024 da Anvisa, que revogou a suspensão total editada 34 dias antes, está proibida a manipulação, a comercialização e o uso de implantes hormonais à base de esteroides anabolizantes ou hormônios androgênicos com finalidade estética, de ganho de massa muscular ou de melhora do desempenho esportivo. Fora dessas finalidades, a manipulação é admitida sob exigências de controle, entre elas CID na receita, receita de controle especial registrada no SNGPC e termo de esclarecimento em três vias. A propaganda ao público em geral segue proibida para todos os implantes hormonais manipulados, inclusive os de finalidade terapêutica.
O implante de gestrinona é aprovado para tratar endometriose?
Não nessa forma. A gestrinona teve registro no Brasil em cápsulas para endometriose, em 1996 e 1997, e esses registros caducaram em 2001 e 2002. O Parecer CFM nº 28/2022 registra que não foram encontrados estudos publicados do uso de gestrinona em implante para endometriose e que nunca houve registro dessa apresentação no Brasil nem em qualquer outro país. A conclusão formal do parecer é que não há base científica que justifique o uso clínico de implantes de gestrinona para qualquer indicação, fora de estudo científico aprovado por comitê de ética em pesquisa.
O chip da beleza emagrece?
A evidência disponível aponta na direção contrária. O Consenso Global sobre Terapia com Testosterona em Mulheres, de 2019, afirma com o nível máximo de evidência que não foi demonstrado efeito da testosterona em dose fisiológica sobre massa magra, gordura corporal total ou força muscular. A metanálise que o sustenta, com 36 ensaios randomizados e 8.480 mulheres, registrou aumento de peso com o tratamento. Para a gestrinona, uma revisão sistemática de 2025 com 32 estudos encontrou ganho de peso de 0,9 a 8 kg em cerca de 40% das pacientes. O manejo do peso segue apoiado em alimentação, atividade física, sono e tratamento das condições metabólicas presentes.
É possível retirar o implante hormonal se eu me arrepender?
Em geral não é essa a conduta. O ACOG Clinical Consensus nº 6, de 2023, registra que, diferentemente de cremes e comprimidos, que podem ser simplesmente interrompidos, o pellet não é desenhado para ser removido e sim para se dissolver com o tempo, e recomenda outras apresentações justamente por causa disso. Com implantes de testosterona, os níveis podem permanecer elevados por cerca de quatro a seis meses após uma única aplicação. Para o implante de gestrinona não há farmacocinética publicada. A conduta usual é acompanhamento clínico e laboratorial até o esgotamento, definido caso a caso.
Quais efeitos do implante hormonal são reversíveis?
Acne, oleosidade da pele e amenorreia costumam reverter, e o hirsutismo, embora seja o efeito de maior magnitude, é manejável. Três efeitos não regridem com a suspensão: a alopecia androgenética, que segue a lógica da calvície de padrão masculino, a clitoromegalia e o engrossamento da voz. A alteração vocal é a mais bem documentada desse grupo, descrita em revisão de 2025 como dependente de dose e duração e potencialmente irreversível. A afirmação de que a testosterona não causa esses efeitos existe nos consensos, mas é condicionada à dose fisiológica, condição que os implantes não cumprem.
Fontes
- Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Anvisa faz proibição e publica alerta sobre hormônios implantáveis manipulados. Resolução-RE nº 3.915, de 18 de outubro de 2024.
- Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Implantes hormonais: novas medidas vão impor mais rigor à manipulação. Resolução-RE nº 4.353, de 21 de novembro de 2024.
- Conselho Federal de Medicina. Resolução CFM nº 2.333, de 30 de março de 2023. Diário Oficial da União, 11 de abril de 2023, Edição 69, Seção 1, página 226.
- Conselho Federal de Medicina. Processo Consulta nº 28/2022. Implantes de gestrinona. Relator: Itairan da Silva Terres. Parecer aprovado em sessão plenária de 9 de maio de 2022.
- Ministério Público Federal. MPF recomenda à Anvisa a suspensão de implantes hormonais manipulados por risco à saúde. Dezembro de 2025.
- Davis SR, Baber R, Panay N et al. Global Consensus Position Statement on the Use of Testosterone Therapy for Women. J Clin Endocrinol Metab. 2019;104(10):4660-6.
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- National Academies of Sciences, Engineering, and Medicine. The Clinical Utility of Compounded Bioidentical Hormone Therapy: A Review of Safety, Effectiveness, and Use. Washington: National Academies Press; 2020.
- Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia. Posicionamento da SBEM sobre o implante de gestrinona. 6 de novembro de 2021.
- Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia e Sociedade Brasileira de Cardiologia. Nota conjunta sobre o uso de testosterona na mulher. 10 de dezembro de 2025.
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Este conteúdo é informativo e não substitui a consulta médica. Na Energia Vital, em Formosa-GO, a avaliação de saúde hormonal é individualizada e vem antes de qualquer proposta de conduta: história clínica, exame físico e, quando indicados, exames complementares.